quinta-feira, 22 de março de 2018

Jovens que não estudam nem trabalham: escolha ou falta de opções?



Adolescente brasileira grávida. Foto: Marcello Casal Jr/Abr.

Entrevistador: Se tu pudesse escolher, como seria a tua vida daqui a dez anos?
Entrevistada: Acho que a mesma. (Risos)
Entrevistador: Em relação a trabalho, o que que tu pensa? Tu queria tá trabalhando, não queria ou não importa?
Entrevistada: Não, tá bom mermo do jeito que eu tô.
Entrevistador: E tu pensa em voltar a estudar?
Entrevistada: Não.

No Brasil, 11 milhões de jovens, quase um quarto da população entre 15 e 29 anos, não estudam nem trabalham. Em um país cuja força de trabalho está ficando mais velha e começará a diminuir em 2035, um diálogo como esse soa preocupante.
Para jogar luz sobre os jovens que não estudam nem trabalham, pesquisadores do Banco Mundial fizeram 77 entrevistas qualitativas (como a acima) com jovens pernambucanos de 18 a 25 anos, moradores tanto de zonas urbanas quanto das rurais.
O resultado é o estudo “Se já é difícil, imagina para mim…”, lançado em março pelo Banco Mundial no Rio de Janeiro.
Segundo a autora, Miriam Müller, é preciso desconstruir o termo “nem-nem”, que não reflete as muitas diferenças entre esses jovens e joga sobre eles um enorme estigma.
“A culpa não é dos jovens. O estudo mostra que algumas condições relacionadas à pobreza e ao gênero produzem um conjunto de barreiras difíceis de superar. Essas limitações prejudicam sobretudo as mulheres, que se veem afetadas na capacidade de imaginar seus futuros, perseverar e ter resiliência”, avalia a cientista social alemã.
O fenômeno dos jovens fora da escola e do mercado de trabalho não é exclusividade brasileira: o documento lembra que ele persiste na América Latina e no Caribe, com consequências desafiadoras.
Trabalhos anteriores feitos na região sugerem, por exemplo, que o problema pode ameaçar a produtividade e o crescimento econômico a longo prazo. Além disso, como 66% dos nem-nens latino-americanos e caribenhos são mulheres, o tema também pode contribuir para uma transmissão intergeracional da desigualdade de gênero.

Discriminação e falta de apoio
Os jovens brasileiros considerados “nem-nens” ou “desengajados” têm diversas razões para estar assim. A primeira delas é o que as autoras chamam de barreiras à motivação interna, ou seja, falta de aspiração ou predisposição para voltar aos estudos ou ao trabalho.
Nesse perfil, encontram-se principalmente as mulheres casadas e com filhos pequenos, vivendo sob normas sociais que reforçam seu papel de cuidadoras e restringem suas oportunidades econômicas.
No segundo grupo, estão aqueles que expressaram motivação para voltar a trabalhar ou estudar, mas não tomaram uma providência porque lhes faltam as ferramentas necessárias para realizar essa aspiração. Embora muitos dos entrevistados tenham se inscrito no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou enviado currículos, não deram continuidade a esses esforços.
“Como esses jovens não tiveram contato com pessoas cujas carreiras fossem interessantes, não conseguiram encarar suas aspirações como algo realista nem receberam informações sobre como realizá-las. A escola tampouco os apoiou”, informa o documento.
Por último, o estudo conta a história de jovens que, embora tenham se esforçado para estudar ou trabalhar, desistiram por causa de barreiras externas. Entre elas, os desafios de conciliar emprego e sala de aula, poucos recursos financeiros ou qualificação, falta de transporte público seguro para se locomover entre uma atividade e outra, e a crise econômica do país. As que já são mães ainda relataram a discriminação que sofreram por parte de potenciais empregadores.

A culpa não é dos jovens. O estudo mostra que algumas condições relacionadas à pobreza e ao gênero produzem um conjunto de barreiras difíceis de superar.
Miriam Müller
Autora do relatório

Muito além dos cursos técnicos
Depois de ouvir esses jovens, suas frustrações e necessidades, as pesquisadoras fizeram uma série de recomendações de políticas públicas para fortalecer a capacidade dos jovens de aspirarem a objetivos, criar e levar adiante seus projetos de vida.
Segundo as autoras, provavelmente é insuficiente aumentar a oferta de cursos técnicos com o objetivo de viabilizar a participação dos jovens no mercado de trabalho se isso não estiver associado a intervenções que:
Facilitem o acesso a informações sobre oportunidades e como elas podem concretamente mudar suas vidas;
Incutam um sentimento de pertencimento e preparação entre os jovens que sentem que as oportunidades disponíveis não são para eles;
Ofereçam programas de apoio ou de mentoria para ajudar esses jovens a lidar com as dificuldades associadas ao cumprimento de objetivos.
A promoção das aspirações relacionadas a trabalho e educação, principalmente entre as mulheres, é uma importante porta de entrada para programas e políticas públicas, acrescenta o relatório: “Muitas das mulheres entrevistadas não conseguem imaginar uma vida em que seu papel não seja somente o de uma cuidadora”.
Finalmente, o documento propõe intervenções específicas para as áreas rurais, onde a divisão do trabalho ainda se baseia muito no gênero. No campo, ainda é preciso conscientizar sobre possibilidades de trabalho além da agricultura e conectar os jovens a oportunidades, garantindo mobilidade a preços acessíveis entre a zona rural e os centros urbanos.

Tudo isso pode fazer a diferença para os futuros integrantes da força de trabalho do país, donos de um potencial que o país não pode mais desperdiçar.

Fonte: Agência ONU

quarta-feira, 21 de março de 2018

A fronteira entre a ética e literatura: a aplicabilidade moral da fantasia em "O Senhor dos Anéis"

Leitura que vale à pena!!!!!

Introdução
O amor pela literatura fantástica me fez iniciar esta jornada para buscar no meio de paisagens épicas, personagens cativantes, conflitos de ideais e finais felizes a essência da matriz motora do agir humano: os valores éticos. Para tanto, nada menos apropriado do que tomar como base o maior clássico fantástico já produzido pela mente humana: “O Senhor dos Anéis”, de John Ronald Reuel Tolkien.

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Escrito entre os anos de 1937 e 1949, esta obra nasceu devido ao grande sucesso editorial de “O Hobbit” e o desejo de se seus fiéis leitores por conhecerem mais sobre a peculiar vida das pequenas criaturas que viviam em buracos confortáveis no chão, os hobbits. Tolkien se depara então no desafio de emplacar mais um sucesso literário; no entanto, também tinha o desejo de continuar a explorar o mundo e as criaturas criadas em seu livro “The Book of Lost Tales”, que mais tarde viria a ser o “Silmarillon”. O Senhor dos Anéis surge então como síntese entre essas duas grandes linhas literárias de Tolkien, o talento nato em criar contos de fadas e sua busca por criar uma nova verdade mitológica no imaginário do folclore britânico (KLAUTAU, 2006).

Tolkien então continua a linha temporal de seu livro anterior apresentando-nos o novo protagonista de sua história: Frodo Bolseiro. Ele, juntamente com o mago Gandalf, seus companheiros hobbits Sam, Merry, e Pippin e outros personagens como elfos, anões e homens se juntam para defender os povos livres da Terra Média contra o poder do Senhor do Escuro, Sauron. Para vencê-lo, Frodo precisará enfrentar uma longa jornada rumo a Mordor para destruir o Um Anel antes que ele caia nas mãos de Sauron. Jornada essa que se divide em 6 livros (divididos em três volumes editorais: A Sociedade do Anel, As Duas Torres e o Retorno do Rei) que contam com diversos personagens secundários interessantes, descrições de paisagens épicas e uma mensagem de fé, temperança, honra e coragem.

O resultado desse esforço de mais de uma década foi uma obra que arrebata gerações, traz um significado moral que atravessa o tempo e sempre propõe ao leitor algo novo toda vez que ele reencontra a obra. Na verdade o que faz uma obra clássica, segundo Calvino (1993), é quando o livro “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, pelo contrário, sempre dará ao leitor uma mensagem nova de acordo com a evolução do próprio leitor. A obra de Tolkien faz com excelência esta tarefa, para cada um que a lê, seja o infante curioso ou o adulto que procura uma distração dos problemas da realidade, ele trará uma mensagem poderosa a eles e ao mesmo tempo diversa. Isto é o que o próprio autor conceitua como aplicabilidade da obra literária.

O que buscaremos então será encontrar estas diversas aplicabilidades no contexto ético do ser humano através de uma análise do comportamento dos hobbits, da opressão do Um Anel, das relações entre os povos livres da Terra Média e do final feliz nos Portos Cinzentos do Golfo de Lhûn[1]. Espera-se que até o final desta jornada todos os preconceitos e barreiras que permeiam as obras de fantasia possam ser superados e que elas possam ser vistas não somente como contos bobos para crianças inocentes, mas como uma imagem verossímil do mundo em que vivemos.

1. O autor e a aplicabilidade de sua obra
John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 3 de janeiro de 1892 na África do Sul mas era filho de pais ingleses. Lutou na I Guerra Mundial logo após ter completado seus estudos na Universidade de Oxford onde mais tarde se tornaria professor de línguas e faria amizade com grandes notáveis daquela época como C. S. Lewis. Tolkien era fascinado por línguas antigas que deram origem ao inglês, em especial o anglo-saxão. Sempre as estudava com o interesse também de analisar a mitologia própria da formação da sociedade do norte da Europa. Foi neste contexto que Tolkien passou a criar línguas próprias onde podia aplicar seus estudos linguísticos na elaboração de vocabulários inéditos. A Terra Média e seus povos surgem então como pano de fundo para essa paixão de Tolkien. Ele não criou as línguas para diversas raças, na verdade criou raças que se identificassem com suas línguas.

Depois do sucesso da publicação do Senhor dos Anéis, muitas cartas chegaram até Tolkien (que sempre se propusera a responder todas elas) questionando-o a respeito do significado da jornada de Frodo, da importância do papel de Gollum[2], ou da representação feita pelo autor durante certos eventos que se passam na história. Em uma de suas cartas, Tolkien diz que nunca teve a pretensão de colocar qualquer tipo de alegoria moral, política ou contemporânea em seu trabalho. E continua dizendo que sua obra é na realidade

(...) um “conto de fadas”, mas um escrito – de acordo com a convicção que certa vez exprimi em um extenso ensaio chamado On fairy-stories que eles são a audiência apropriada – para adultos. Porque eu acredito que contos de fadas têm sua própria forma de refletir a verdade, diferentemente de alegoria, ou (sustentada) sátira, ou realismo, e em certos aspectos mais poderosa. Mas antes de tudo deve proceder apenas como um conto, excitar, deleitar, e em alguma ocasião comover, e internamente a seu próprio mundo imaginário, estar de acordo (literariamente) ao seu propósito. Ser bem sucedido nisso era o meu objetivo primário. (TOLKIEN In. Carpenter, 2006, p. 388)

A partir desse relato, compreendemos então que o objetivo principal do autor era simplesmente escrever uma obra literária que entretece o leitor de forma a fazer com que haja uma relação de identificação entre os personagens e aqueles que estão lendo. Para tanto, é inegável que o autor, para prender a pessoa na leitura, deverá usar de valores, situações e ensinamentos que aproximem a realidade do leitor com a realidade da Terra Média. Estas ferramentas virão inevitavelmente da bagagem ética e das experiências externas que o autor carrega. Isso então seria o motivo para a presença de diversas interpretações da obra Tolkeniana.

É importante, então, traçarmos uma breve distinção entre alegorias, que são as representações de indivíduos ou valores concretos em uma obra, e aplicabilidade, que seria o uso das experiências e conhecimentos intelectuais e morais do leitor para criar uma relação entre ele e a obra bem como para criar um sentido para ela em sua vida. No próprio prefácio do livro, o autor demonstra sua preferência por histórias inventadas pelo fato de preferir a aplicabilidade das histórias, por julgar que elas se baseiam na liberdade do leitor, enquanto as alegorias são uma ferramenta de dominação proposital do autor (2002a, p. XIII).

Nosso estudo se propõe, por conseguinte, a utilizar destes atributos da aplicabilidade para desvendarmos a riqueza ética de diversos eventos e personagens relatados durante a Saga do Anel. Tomando essa proposta, descobriremos a importância das obras de fantasia na construção de mitos e experiências e valores importantes na formação do ser pensante.

2. Os hobbits
“In a hole in the ground there lived a hobbit” (TOLKIEN, 2012). Assim o autor começa a descrever uma das criaturas mais intrigantes e virtuosas de toda a literatura. São seres que amam acima de tudo a paz e tranquilidade, sempre dispostos a colher o que vem da terra e cultivar a arte da erva-de-fumo. O que mais cativa os leitores até hoje sobre os hobbits é a sua animosidade para seus próximos e sua força de vontade para superar qualquer desafio. O próprio Tolkien se considerava um hobbit, e a partir disso colocou nos personagens de Bilbo e Frodo Bolseiro[3] um conjunto de valores cristãos próprios que dão vida à idoneidade e coragem dos personagens.

Ives Gandra Filho (2009), jurista e tolkeniano, declara que há uma proximidade considerável entre o comportamento dos hobbits e a ética eudemonológica preconizada por Aristóteles em “Ética a Nicômaco”. Isto se justifica devido às repetidas ações virtuosas dos hobbits ao exercerem atos de coragem, amabilidade, temperança, etc. Logo, ao levarem esse modo de vida, conseguem alcançar a plenitude que viria a ser definida por Aristóteles como a felicidade natural (apud. GRANDA FILHO, 2009)

Por conseguinte, chegamos a notar que o caráter dos dois hobbits protagonistas da história, Frodo e Sam, são um ícone fidedigno da carga filosófica grega a respeito da ética das virtudes e o equilíbrio entre o excesso e carência que leva a felicidade.

Pode-se dizer que a ação maior de Frodo foi aceitar a carregar o Anel e toda sua carga corruptiva para destruí-lo e livrar a Terra-Média do grande Mal. Frodo não objetivava receber recompensa alguma por aquele ato, não tinha a mentalidade dos homens mortais que objetivavam a glória, ou ainda, não pretendia conquistar os maios altos postos de poder como pretendiam os Altos Elfos. Ele simplesmente encarou a jornada por se dar conta de que aquela era sua missão e de mais ninguém, através de sua coragem e nobreza ele procurou livrar do mal aqueles que amava. Seu ato de vontade altruísta tinha como bem a destruição do mal, que tinha como fim a liberdade dos Povos Livres da Terra-Média.

Em diversas passagens do livro, porém, a integridade moral de nossos protagonistas é posta a prova por diversas adversidades, personagens de má índole e principalmente pelo Anel. No capítulo I do Livro VI, por exemplo, há um episódio onde Sam se encontra longe da companhia de Frodo, procurando forças para continuar sua caminhada à procura de seu mestre desaparecido, foi aí que de repente:

Seu pensamento voltou-se para o Anel, mas ali não havia consolo, só terror e perigo. (...) seu poder crescia e ficava mais cruel, não podendo ser controlado a não ser que houvesse alguma vontade poderosa. (...) O Anel já o tentava, devorando sua vontade e raciocínio. Fantasias loucas despertavam, e ele via Samwise, o Forte, Herói do seu Tempo, caminhando a passos largos com uma espada flamejante através da terra escurecida, e exércitos se arrebanhando a um chamado seu, no momento em que marchava para derrotar Barad-dûr. (...) Ele só tinha de colocar o Anel e reivindicar sua posse, e tudo isso podia acontecer. (TOLKIEN, 2002c, p. 171)

Sam nesse momento tem sua retidão moral comprometida quando é tentado a tomar o anel para si e abusar de seu poder. Tolkien, como bom católico que era, retrata nessa passagem um conflito entre a virtude de viver bem e retamente, tendo seus princípios éticos resguardados, contra os anseios materialistas que buscam sanar uma adversidade. Além da afinidade com a ética aristotélica de se alcançar a felicidade, percebemos que os comportamentos éticos dos hobbits também assumem um caráter cristão ao expor a virtude como caminho para se alcançar a plenitude na figura de Deus mesmo sabendo que adversidades e aflições estarão pelo caminho (KLAUTAU, 2007). Tolkien procurou, portanto, mostrar que a simplicidade e a humildade daquelas pequenas criaturas era tanta, comparada a outros povos, que o Anel não conseguia corrompê-los. Essa valorização da humildade é consequência clara da máxima cristã que “felizes são os humildes, pois alcançaram o reino dos céus”. O “reino dos céus” (fim almejado pela virtude na concepção de Santo Agostinho) no caso da história seria o fim da opressão do Mal, que levaria a felicidade.

O livro aponta ainda outro fator que contribui a resignação dos hobbits às tentações do Anel: O simples fato de serem hobbits! Por serem pequenos em relação a outras raças, eles não se julgam capazes de deter qualquer tipo de poder ou objeto material que exceda as suas necessidades básicas. Para superar o episódio citado, Sam usou como arma o fato de que “sabia em seu coração que não era grande o suficiente para carregar tal fardo, mesmo que aquelas visões não fossem uma mera ilusão para atraiçoá-lo.” (TOLKIEN, 2002, p. 171).

3. O anel
A origem da mitologia de Tolkien em torno do Um Anel teve uma gênese bem diversa da carga maligna e imperativa que o Anel assume em “O Senhor dos Anéis”. Em “O Hobbit”, Tolkien narra Bilbo encontrando um anel no meio da escuridão das Montanhas Nebulosas que pertencia à criatura que vivia isolada naquele local, Gollum. Mais tarde, Bilbo descobriria que o anel mágico tornaria aquele que o usasse invisível, então ele foi de grande ajuda para Bilbo em sua jornada. Fica claro então que o anel era apenas um dos diversos elementos mágicos descritos em “O Hobbit”; porém, em seu posterior trabalho, Tolkien procurou criar uma nova simbologia em torno desse objeto e o inseriu como um dos elementos principais da mitologia da Terra Média.

De antemão, Tolkien escreve nas primeiras páginas do “Senhor dos Anéis” um pequeno poema que revela o verdadeiro motivo existencial do Um Anel.

Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,

Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,

Nove para os Homens Mortais, fadados ao eterno sono,

Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono

Na terra de Mordor onde as sombras se deitam.

Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,

Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam

(Tolkien, 2002a, p. 52)

O livro nos conta que Sauron, o Senhor do Escuro, propõe uma aliança com os povos livres da Terra-Média e para simbolizar isto oferece a eles anéis que representam essa aliança. No entanto, ele forja secretamente um anel que tem o poder de dominar todos os outros, de forma que Sauron o usasse para conquistar a Terra Média. No entanto, seu plano é frustrado devido à resistência dos outros povos e seu Anel cai no esquecimento, retornando a expressar seu poder séculos depois, quando Bilbo o encontra e o deixa como herança para Frodo.

Dando-nos este contexto conflituoso, Tolkien já delineia a representação pura do Mal na figura do Um Anel e do poder de sedução que ele exerce sobre as raças. Através dessa simbologia, o autor trabalhará seus conceitos cristãos de livre-arbítrio, pecado original e das forças do Mal nesse plano de fundo fantástico.

Antes de nos aprofundarmos mais na abordagem cristã sobre a representatividade do Anel, façamos aqui uma analogia entre o poder dele sobre a moral dos homens e hobbits e da história de Giges narrada em “A República” de Platão. No livro, Glauco dialoga com Sócrates a fim de comprovar sua tese de que a justiça é mera convenção social onde os seres humanos agem justamente porque são observados o tempo todo. Para exemplificar seu discurso, Glauco conta a história de Giges, pastor que descobre dentro da terra um anel capaz de deixá-lo invisível; com este poder, ele passa a agir de maneira onde faria o que bem entendesse e alcançaria tudo o que cobiçasse. Glauco então termina dizendo que

Se, portanto, houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, (...). Comportando-se desta maneira, os seus atos em nada difeririam dos do outro, mas ambos levariam o mesmo caminho. E disto se poderá afirmar que é uma grande prova, de que ninguém é justo por sua vontade, mas forçado, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as. (2001, p. 47.)

Tolkien, ao descrever a conduta de Bilbo em “O Hobbit” de ter sido misericordioso quando ameaçado por Gollum e ao mostrar o quanto Frodo foi perseverante em não sucumbir a tentação do Anel, se contrapõe de maneira categórica a Glauco ao revelar nos hobbits que, mesmo possuindo o poder de desvirtuar sua conduta visando fins egoístas, eles continuaram íntegros. Klautau coloca que essa atitude dos hobbits, principalmente durante a jornada de Frodo, em utilizar-se do livre arbítrio de escolher entre aquilo que é justo ou injusto desafia “a capacidade de sedução e corrupção que assenta a propagação de Sauron” (2006, p. 4).

Percebe-se então que Tolkien se apropria da representatividade do anel de Giges como ferramenta de desvirtuamento dos indivíduos, mas insere nessa simbologia o fator do controle que suprime o livre-arbítrio daqueles que são tentados pelo anel de Sauron. Outro aspecto acerca do poder dominador do Anel é o anseio em que os homens buscam por formas de alcançar o poder a todo custo, muitas vezes abrem mão até mesmo de sua autonomia moral para tanto. Como bom católico que era, Tolkien buscou reforçar a capacidade do indivíduo em utilizar de seu livre arbítrio para não desejar o poder controlador representado na figura do Anel. Pode-se dizer, como conclusão, que o Anel é de fato a materialização do desejo humano em possuir reconhecimento e poder dos seus semelhantes e da noção católica de Mal que procura levar a humanidade a enveredar por caminhos tortuosos. Levando em conta a época em que o autor vivia, muitos foram os homens contemporâneos a ele que objetivavam as maiores honras mesmo tendo que abrir mão dos valores éticos, do seu senso de justiça e daquilo que Tolkien julgava ser o Bem.

4. Os povos livres da terra-média
Passemos agora a uma breve análise dos valores éticos e da importância da construção de diversas raças no “Senhor dos Anéis”. Tolkien se apropriou de diversos seres mitológicos da cultura nórdica e inseriu-os todos juntos em uma terra que inspira ares medievais e procurou dar a elas características bem singulares uma das outras. Entre essas singularidades estão as diferentes línguas criadas pelo próprio autor, que possuem características morfológicas e ortográficas bem diversas uma das outras[4], suas formas de organização socioeconômica, suas aspirações e fraquezas, entre outros aspectos. Tolkien se preocupou também em dar importância sobre os valores e ambições que cada povo carrega; logo, pode-se dizer que cada valor humano, bom ou ruim, está inserido em uma daquelas raças. Entre esses povos os mais emblemáticos, além dos hobbits, estão os elfos, os anões e os homens.

Há na Terra Média seres imortais, que amam a natureza, danças, músicas e reverenciam seus Deuses. Estes são os Elfos. Povo que encontrou na Terra-Média um refúgio, mas sabem que o seu lugar é em uma terra distante, longe de guerras e destruição. Mesmo sendo imortais e puramente racionais, não ousam desafiar o poder do Anel por possuírem um certo sentido de auto-preservação. Na narrativa do “Senhor dos Anéis”, enquanto os homens lutam pela sua terra, os elfos fogem para as terras do Oeste.

Os anões são seres de baixa estatura que vivem embaixo da terra sempre em busca de riquezas. São criaturas avarentas por natureza, são ligadas aos bens materiais que possuem e só lutaram contra o Senhor do Escuro quando sua terra foi ameaçada.

Enquanto aos homens, Tolkien enfatiza a honra e desejo por poder que eles possuem. É dito que, pelo fato de serem mortais, procuram cultivar o máximo de reconhecimento que puderem, para poderem ser lembrados na posteridade. Aqui o autor descreve os seres humanos de maneira mais crua possível. Os coloca como seres que têm consciência de que são perecíveis, portanto procuram viver da maneira mais intensa possível. Essa maneira de viver reflete em seus feitos grandiosos, suas grandes cidades e muitas vezes a crueldade com que tratam seus iguais. Mesmo tendo uma tendência a escolher não o que é certo, mas o que lhes é mais conveniente; logo, são seres facilmente corruptíveis. Isso se explicita pelo fato de Sauron dominar os temidos espectros do Anel que são nove reis homens que buscaram o poder do Anel e só conseguiram aprisionamento.

5. Os portos cinzentos
Toda jornada tem um fim, e na história de Tolkien não é diferente. Na fé cristã, o fim é a eternidade. Toda nossa retidão ética nos levará a uma recompensa eterna, assim é a ética cristã que prega que as nossas bem-aventuranças (atos de integridade moral) nos levarão não à felicidade natural, mas a uma felicidade eterna. Gandra Filho (2009) conclui que através das ações nobres de Frodo e Sam no decorrer da narrativa, levaram com que eles tivessem o direito de contemplar a vida eterna rumo ao Oeste. O Mal não os venceu, portanto sua moral permaneceu inabalada, provando que criaturas aparentemente desprezíveis como hobbits podem mudar o rumo da história.

Ao colocar estas criaturas em posição de honra, Tolkien recorre mais uma vez a um ensinamento bíblico que diz na carta de Paulo aos Coríntios que Deus escolhe as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. O resultado disso, foi a recompensa de poder alcançar a vida eterna. Para tanto, Frodo e Sam, juntamente com Bilbo e Gandalf, partem para os Portos Cinzentos para tomar a embarcação rumo às terras imortais do Oeste. Nesse desfecho, o autor faz uma pura e bela analogia da morte, onde aqueles que vencem o Mal serão recompensados com a vida eterna e o Bem prevalecerá.

Conclusão
Reunindo seu entendimento sobre a Ética Aristotélica, ensinamentos bíblicos, mitologia nórdica e sua sincera vontade contar uma boa história, J. R. R. Tolkien criou um clássico para todos aqueles que procuram se aventurar em uma terra que fascina pelos seus personagens, prende o leitor pelas descrições de belas paisagens e emociona pelo prevalecimento do Bem sobre o Mal. “O Senhor dos Anéis” é uma obra que ficará para a posteridade como o grande marco da literatura que juntou recursos literários extraordinários como profundos ensinamentos morais que não se limitam somente para aqueles que acreditam que de fato há uma recompensa no fim de tudo. Mas possui grande valor também para todos que procuram enfrentar da melhor maneira possível essa jornada chamada vida.

Fonte: JusBrasil

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Beijo roubado configura o crime de estupro?


por Mackysuel Mendes Lins

Primeiramente, é muito importante frear os pensamentos alhures e aquelas pessoas que costumam comentar e criticar as decisões sem ler o seu teor. Rapidamente, para não delongar um assunto e complica-lo, dividirei em cinco partes.

1. O que é a figura do beijo roubado?

É comumente chamado de beijo lascivo ou beijo de micareta.

É o exemplo de um rapaz que em uma festa, ao notar uma linda menina, se dirige até a mesma e, segurando-a rapidamente, lhe dar um beijo. Isso é um beijo roubado para fins de Direito Penal.

2. Essa conduta configura o crime de estupro?

Bom, essencialmente, é importante entender o que seria o crime de estupro, previsto o art. 213 do Código Penal[1], e como se configura.

Pune-se o ato de libidinagem violento, coagido, obrigado, forçado, buscando o agente constranger a vítima à conjunção carnal (conjunção normal entre sexos opostos) ou praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso[2].

Quando se trata de violência, devemos entender o fato de que cobra-se a violência material, isto é, emprego de força física suficientemente capaz de impedir a mulher de reagir. Por outro lado, a grave ameaça se dá através de violência moral, direta, justa ou injusta, situação em que a vítima não vê alternativa a não ser ceder ao ato sexual[3].

Desse modo, o beijo roubado não configura o crime de estupro, tendo em vista que inexiste a configuração da elementar subjetiva de violência ou grave ameaça. É preciso, no ato do beijo roubado, o agente impor violência capaz de impedir a reação da vítima, ou grave ameaça capaz de fazer com que a vítima não veja outro modo senão ceder a violência moral impelida.

Ressalta-se que no exemplo utilizado, o rapaz segura rapidamente a moça e dar um beijo, não há o que se falar em violência (força física exercida sobre a pessoa, capaz de evitar qualquer tipo de reação), bem como não há grave ameaça (intimidação com o fim de subjugar a vontade da vítima pelo medo).

Uma vez que não se encontram presentes as elementares susas, não há a configuração do tipo penal de estupro pela falta de elementar típica, pela falta de dolo, que para Luiz Regis Prado “exige-se o elemento subjetivo do injusto, consistente em particular tendência ínsita no sujeito ativo (...) Presença de um ânimo lúbrico (sensual, lascivo, devasso, libidinoso), ou seja, de uma finalidade de excitar ou satisfazer o impulso sexual próprio ou alheio”[4].

Não estando presente o dolo, não há no que se falar na modalidade culposa, visto que o legislador não admitiu tal hipótese no art. 213, do Código Penal, ou seja, para que possa dizer que um crime é culposo, faz-se necessário a previsão legal (tipicidade).

Quando analisamos a teoria do crime, percebemos que o fato típico é composto pela conduta, resultado, nexo causal e tipicidade, na ausência de um desses elementos, o fato é atípico. No caso do beijo roubado, temos a hipótese de atipicidade do delito, haja vista que a ausência de dolo e culpa exclui a própria conduta e o fato típico. Motivo pelo qual não há crime de estupro.

3. A conduta configura alguma espécie de infração penal?

Sim, configura uma contravenção penal. É, não se trata de crime como vimos no tópico acima. Temos a figura da importunação ofensiva ao pudor[5], prevista no art. 61, do Decreto-Lei n.º 3.688/41 (Lei de Contravencoes Penais).

4. O que seria a contravenção penal de importunação ofensiva ao pudor?

É importante mencionar que a presente contravenção também atenta contra a dignidade sexual do ser humano. Está ligada à sexualidade, ou seja, ao conjunto de fatos, ocorrências e aparências da vida sexual de cada um[6].

Pois bem, salienta-se que a contravenção penal é uma espécie de infração penal que se adequa à infração de menor potencial ofensivo, por sua vez, o seu trâmite é tutelado pela Lei n.º 9.099/95 (Lei dos Juizados Especiais).

Essa previsão é expressa pelo art. 61, da Lei n.º 9.099/95, quando inclui no rol de infrações de menor potencial ofensivo a contravenção penal e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa.

Uma observação muito importante a ser feita é que por se tratar de contravenção penal, não cabe prisão em flagrante do indivíduo, é o que versa o art. 69, p. único, da Lei n.º 9.099/95[7].

Então se o indivíduo praticar a contravenção penal do beijo roubado, ou melhor dizendo, a contravenção da importunação ofensiva ao pudor (art. 62, da LCP), deverá ser encaminhado à autoridade policial para que seja lavrado um TCO – Termo Circunstanciado de Ocorrência, sendo o indivíduo imediatamente encaminhado a presença do juiz ou prestando compromisso de comparecimento, nos termos do art. 69, p. único, do LJECC.

Uma das observações significativas a serem feitas é o fato de que a contravenção da importunação ofensiva ao pudor é muito confundida com o crime de estupro, visto que guardam algumas semelhanças que muito confundem as pessoas leigas e a mídia que não possui esse conhecimento técnico.

Analise o ponto em que no crime de estupro, a vítima não tem soberania sob seu pensamento, escolha, vontade e ação. É tomada por força física e impedida de reagir, ou por grande coação moral que lhe atribui medo capaz de impedir qualquer reação. Por outro lado, na importunação ofensiva ao pudor, a vítima ainda que sob algum tipo de afronta à sua dignidade sexual, pode escolher por permanecer ou não na situação.

O agente que rouba um beijo de uma menina, não impede a reação da mesma, ela pode decidir por permanecer no beijo ou se afastar, o empurrar ou até mesmo sair do local. Porque qualquer prática de ato por parte do agente que venha a impedir, utilizando da força ou impelindo medo, caracterizará o crime de estupro.

5. Como ficou o entendimento do STJ a respeito do beijo lascivo?

O STJ entendeu que o beijo lascivo configura o crime de estupro? Na verdade, não. O caso que foi julgado pela 6ª turma, foi o seguinte: O agente abordou de forma violenta e sorrateira a vítima com a intenção de satisfazer sua lascívia, o que ficou demonstrado por sua declarada intenção de "ficar" com a jovem – adolescente de 15 anos – e pela ação de impingir-lhe, à força, um beijo, após ela ser derrubada ao solo e mantida subjugada pelo agressor, que a imobilizou pressionando o joelho sobre seu abdômen.

Neste caso, é óbvio que estamos diante da figura do crime de estupro. Precisamos analisar as particularidades do caso concreto. Além do “beijo roubado” e do fato de “só querer ficar”, o agente arrancou, à força, a blusa que a adolescente vestia.

Houve, nesse caso julgado pelo STJ, uma indiscutível violência sexual, pois o agente envolveu a vítima por trás, com uma mão laçando o pescoço (ação de enforcamento) e outra tapando sua boca, derrubou-a no chão e pressionou seu joelho contra o abdômen da ofendida. Mesmo com a resistência oferecida pela vítima, o agressor, novamente fazendo uso da força física, agarrou-a pelos braços, retirou sua blusa e forçou o mencionado beijo de língua[8].

Ora, deve-se ter em mente que estupro é um ato de violência (e não de sexo). Busca-se, sim, a satisfação da lascívia por meio de conjunção carnal ou atos diversos, como na espécie, mas com intuito de subjugar, humilhar, submeter a vítima à força do agente, consciente de sua superioridade física[9].

A jurisprudência do STJ vem, reiteradamente, decidindo que deve ser considerado ato libidinoso diverso da conjunção carnal não apenas os atos invasivos (quando há introdução do membro viril nas cavidades oral ou anal da vítima), mas também outras condutas que deixem claro o propósito lascivo do agente[10].

Isto posto, percebemos que a decisão do STJ de configurar beijo roubado como crime de estupro não fora na condição do “beijo roubado”, tão somente, mas o fato de ter sido o beijo roubado praticado em contexto de violência física, porque satisfaz as elementares do crime de estupro.

Portanto, muito cuidado, meus colegas, se o beijo roubado não for praticado com violência física ou coação moral, temos a hipótese da contravenção de importunação ofensiva ao pudor (art. 62, da LCP), todavia, se o beijo roubado for aplicado no contexto de violência física ai teremos a hipótese do crime de estupro (art. 213, do CP).

Fonte: Jusbrasil

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Reforma da Previdência e o fim dos “privilégios” dos Servidores Públicos

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Recentemente foram ao ar inúmeras campanhas publicitárias do governo federal com a mensagem de que a reforma previdenciária é necessária para que se acabe com os “privilégios” dos servidores públicos filiados aos Regimes Próprios de Previdência Social.

No Direito Adminstrativo os servidores públicos são divididos em várias categorias, dentre elas: Agentes Políticos, Servidores Comissionados e Servidores Efetivos.

Os Agentes Políticos que, geralmente cumprem mandatos eletivos e são remunerados por subsídios, são filiados obrigatórios do INSS (Lei 8.213/91 art. 11, h), não onerando, portanto, os regimes próprios de previdência.

Os Servidores Comissionados, que são os cargos de livre nomeação e livre exoneração (cargos de confiança) da mesma forma, já que também são filiados obrigatórios do INSS (Constituição Federal, art. 40, § 13).

Então, estariam tais propagandas publicitárias denotando que os servidores públicos concursados é que são responsáveis pela crise financeira do sistema previdenciário?

Pois bem, esqueceram de dizer que o servidor concursado conquistou o seu cargo por merecimento, mediante provas de seleção amplamente disputadas.

Esqueceram de dizer que TODOS os servidores públicos contribuem mensalmente com 11% (em Santa Catarina a contribuição é de 14%) sobre o totalidade de sua remuneração (no INSS é 8, 9 ou 11% - a depender da renda - e limitado ao teto).

Esqueceram de dizer ainda, que os servidores públicos já possuem idade mínima para se aposentar desde 1998, após a Emenda Constitucional nº 20/98 (Homem 60 e Mulher 55 – diferente dos 53 e 48 do INSS).

Esqueceram também, que desde 2003 (com Emenda Constitucional nº 41/03) não existe mais a possibilidade do servidor se aposentar com a última remuneração (paridade e integralidade), sendo calculado com base na média das contribuições (nada mais justo).

Esqueceram ainda, que os aposentados e pensionistas filiados aos RPPS continuam contribuindo sobre seus proventos após a inatividade (§ 18 do artigo 40 da CF).

Por fim, esqueceram que nos RPPS não existem benefícios assistenciais (tal qual LOAS, BPC, que não exigem a devida contribuição).

Deve existir equilíbrio financeiro e atuarial dos institutos, bem como constante fiscalização e responsabilização de irregularidades, e os institutos que não estão saudáveis deve haver intervenção preventiva do Estado, para que não cheguemos ao ponto de vermos benefícios e aposentadorias atrasadas ou até com o risco de não mais existirem (RJ por exemplo).

Os ajustes e atualizações são sempre necessários, desde que embasadas em estudos técnicos verdadeiros, sem que haja um “nivelamento por baixo”, fazendo com que todos os RPPS's passem a adotar as mesmas regras, sem levar em conta a situação financeira de cada um.
(Diego Stefani)

Fonte: Jusbrasil

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Envio de cartão de crédito sem solicitação é prática abusiva e pode gerar danos morais

Se você já recebeu cartão de crédito em sua residência sem solicitação ou autorização prévia, saiba que você foi vítima de prática abusiva segundo o artigo 39, inciso III do Código de Defesa do Consumidor e Súmula 532 do Superior Tribunal de Justiça.

A prática em questão é passível de multa administrativa e indenização por danos morais a ser pleiteada pelo recebedor em ação judicial.
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Inúmeras são as decisões dos tribunais nesse sentido, ao passo que os valores arbitrados a título de danos morais variam de R$ 3.000,00 a R$ 20.000,00, dependendo do ocorrido no caso concreto.

De igual modo, os tribunais cíveis têm decidido que o dano moral é devido mesmo naqueles casos em que os cartões de crédito tenham sido enviados bloqueados, dependendo do consumidor para realizar seu desbloqueio e começar a utilizá-lo.

Ainda é bom informar que não é apenas o remetente do cartão de crédito que pode vir a ser punido em eventual demanda judicial, mas também são responsáveis as bandeiras de cartão, as instituições financeiras e os estabelecimentos comerciais envolvidos no envio.

As orientações para os consumidores que receberam cartão de crédito sem solicitação em sua residência são primeiro, não utilizá-lo, guardando-o como meio de prova, por segundo, solicitar seu cancelamento, anotando os números dos protocolos do pedido e por fim, procurar um advogado para propositura de ação de indenização por danos morais.
Autor: Thais Amaral

Fonte: JusBrasil

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

10 Estratégias de Manipulação em Massa utilizadas diariamente contra a população



Noam Chomsky é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna“, também é uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica.

"Em um estado totalitário não se importa com o que as pessoas pensam, desde que o governo possa controlá-lo pela força usando cassetetes. Mas quando você não pode controlar as pessoas pela força, você tem que controlar o que as pessoas pensam, e a maneira típica de fazer isso é através da propaganda (fabricação de consentimento, criação de ilusões necessárias), marginalizando o público em geral ou reduzindo-a a alguma forma de apatia" (Chomsky, N., 1993)

Inspirado nas idéias de Noam Chomsky, o francês Sylvain Timsit elaborou a lista das “10 estratégias mais comuns de manipulação em massa através dos meios de comunicação de massa“. Sylvain Timsit elenca estratégias utilizadas diariamente há dezenas de anos para manobrar massas, criar um senso comum e conseguir fazer a população agir conforme interesses de uma pequena elite mundial. Qualquer semelhança com a situação atual do Brasil não é mera coincidência, os grandes meios de comunicação sempre estiveram alinhados com essas elites e praticam incansavelmente várias dessas estratégias para manipular diariamente as massas, até chegar um momento que você realmente crê que o pensamento é seu.

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1. A estratégia da Distração
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética.
“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais“

2. Criar problemas e depois oferecer soluções
Este método também é chamado “problema-reação-solução“. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.
Por exemplo: Deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.
Ou também: Criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. (qualquer semelhança com a atual situação do Brasil não é mera coincidência).
Este post PORQUE A GRANDE MÍDIA ESCONDE DE VOCÊ AS NOTÍCIAS BOAS? retrata bem porque focar nos problemas é interessante para grande mídia.

3. A estratégia da gradualidade
Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas, neoliberalismo por exemplo, foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estratégia também utilizada por Hitler e por vários líderes comunistas.  E comumente utilizada pelas grandes meios de comunicação.

4. A estratégia de diferir
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.
É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.
Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. Dirigir-se ao público como crianças
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental.
Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.”

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.
Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade
Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9. Reforçar a auto-culpabilidade
Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços.
Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E, sem ação, não há questionamento!

10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem
No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes.
Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado sobre a psique do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.

O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.

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Fonte: http://yogui.co

PORQUE A GRANDE MÍDIA ESCONDE DE VOCÊ AS NOTÍCIAS BOAS?

Quando você pensa sobre o estado atual do mundo, você pode ter pensamentos negativos sobre a forma como será nosso futuro.

Não é sua culpa pensar assim já que o que você costuma ler ou ouvir é, em sua maior parte, bastante desanimador. Repórteres e jornalistas parecem amar cobrir os escândalos de corrupção, as guerras devastadoras, os desastres naturais, mas não se interessam com a mesma garra por notícias boas, animadoras.

Frequentemente jornalistas recebem prêmios de honra por coberturas de grandes desastres humanos.

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A tragédia é o produto que dá mais resultado em termos de audiência e quanto mais audiência mais $$$$, então a matemática é simples:

Medo -> Audiência -> Dinheiro

Algo sempre tem que estar ruim. Jamais você ligará a TV e só encontrará boas notícias. Como sempre que você for na padaria haverá pão, sempre que ligar a TV terá notícia ruim, pois notícia ruim é o produto.
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 As grandes corporações de comunicação descobriram que nosso cérebro é programado para ficar mais atento a coisas que nos colocam em perigo do que em coisas que nos deixam felizes.

Isso se chama Complexo Reptiliano. Se você estiver observando uma bela flor no campo e aparecer uma cobra, você precisa prestar mais atenção à cobra para poder sobreviver.

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O Mundo é bão Sebastião!
Mas eu quero dizer-lhe algo diferente. Nós estamos muito melhor do que pensamos. Apesar do que lhe foi dito, a pobreza, o analfabetismo e as taxas de doenças globais têm caído sistematicamente nos últimos anos. No entanto, muitas pessoas não sabem ou pensam sobre estas estatísticas encorajadoras.

Por exemplo, no EUA quando perguntado qual a porcentagem da população do mundo vive na pobreza extrema e como esse número tinha mudado ao longo dos últimos 20 anos, 66% pensam que o percentual dobrou, enquanto 29% acharam que tinham permanecido mais ou menos o mesmo.

Mas de acordo com o Banco Mundial, no entanto, o número foi efetivamente reduzido para metade. Como pode 95% da população estar equivocada? Talvez seja a forma como as questões são cobertas (ou não cobertas) pela mídia.

A pesquisa gapminder.org 2013, parte do Projeto Ignorância, selecionou uma série de perguntas para avaliar o nível da consciência do americano em relação as questões do mundo.

Cerca de 80% da população do mundo é alfabetizada, mas apenas um pouco mais da metade dos norte-americanos estavam cientes disso. A pobreza extrema tem visto uma queda dramática. A meta da ONU é erradicar a pobreza mundial até 2030.

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Criança indiana alimenta sua irmã mais nova

Definitivamente, temos ainda um longo caminho a percorrer, mas se essas tendências continuarem, devemos ver um maior equilíbrio neste planeta. Neste momento tem mais, mas muito mais pessoas se abraçando do que pessoas se matando.

A grande maioria da população mundial hoje terá um dia normal, irá trabalhar, depois se reunir com seus familiares e tudo transcorrerá normalmente, mas isso não é interessante mostrar no noticiário, pois não vende.
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Outras Questões, tais como:

  • A igualdade de gênero; 
  • Energia limpa a preços acessíveis;
  •  Expansão dos alimentos orgânicos;
  • Movimentos contra consumismo exagerado estão ganhando força como lowsumerism, slow life, slow food,
  • Cada vez mais pessoas estão abandonando carros e utilizando bikes e transportes coletivos;
  •  Pessoas se reunindo e criando Ecovilas; 
  • Muitas pessoas contribuindo cada vez mais para programas como Médicos Sem Fronteira, Greenpeace e outros; 
  • Programas de compartilhamentos de carros e outros bens ganham cada vez mais força; 
  • Esta havendo um boom no despertar da espiritualidade, antigamente era raro ouvir falar sobre meditação, yoga e temas afins, que ficavam restrito aos que chamavam de gente esquisita do misticismo, hoje empresários e pessoas comuns entendem o tema e buscam por essas e outras opções de despertar da consciência
  • Mulheres estão se unindo cada vez mais em prol do Parto Humanizado e não aceitando imposições e autoridade de médicos sem questionar, recusando a cesárea como a primeira opção e buscando humanizar este momento pleno da mulher e do neném; 
  • As pessoas estão questionando cada vez mais o que estão comendo, obrigando indústrias a rever seus alimentos cheios de conservantes e outras substâncias nocivas a saúde
  • Mais e Mais pessoas estão abandonando padrões sociais castradores e buscando sair da zona de conforto e buscar realmente sua vocação e o que amam; 
  • Os alemães recebendo os sírios de braços abertos. Esse tipo de cena era inimaginável há uns 30 anos atrás; 
  • O presidente chinês Xi Jinping se comprometeu a estabelecer um fundo de US $ 2 bilhões para investir em países em desenvolvimento. Ele também disse que a China iria cancelar as dívidas dos países menos desenvolvidos do mundo, e que Pequim iria ajudar em 600 projetos no exterior nos próximos cinco anos e oferecer mais bolsas;

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Poderia elencar uma lista enorme sobre todas coisas boas que estão acontecendo no mundo, independente das grandes corporações da mídia darem ou não a devida a atenção.  Graças ao avanço da internet, pessoas estão se reunindo ao redor do mundo e fazendo um mundo novo a par desse mundo obscuro que a mídia tenta fazer você acreditar que é.

Eles fazem isso, pois sabem que o medo vende bem e batem numa tecla antiga e desgastada que já não está surtindo tanto efeito como antes.

A medida que o ser humano vai ficando menos instintivo e mais consciencial a tecla do medo vai perdendo o efeito.

Talvez seja por isso grandes corporações da mídia mundial começam a ter problemas financeiros.

O mundo nada mais é do que como vemos o mundo. Entenda que quando um redator esta fechando uma reportagem, ele não tem um intuito só de lhe informar, mas sim de chocar sua mente, ativar sentimentos instintivos (medo, raiva, alegria, tristeza) e esse sentimento irá lhe fazer se interessar a continuar vendo aquilo. E os sentimentos negativos são considerados os melhores para essas técnicas.

Existem profissionais especialistas em técnicas de persuasão para prender sua atenção. E segundo esses profissionais, a melhor maneira de fazer isso é ativando algum medo da pessoa e após isso oferecer-lhe uma solução. É considerada a melhor maneira de vender algo.

Entenda que o mundo não é o que você lê, vê nos jornais. Isso são pessoas narrando para você como você deve enxergar o mundo. LIBERTE-SE dessa influência.

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Autor: Tales Luciano Duarte 

Fonte: yogui.co